Novembro 17, 2008

sufoco 03.11

Meu estômago está doendo horrores. Até parei com a décima sexta xícara de café, que neste momento já deve estar fria aqui na minha frente. (exagerado, mas fica!).
Não sei. A minha angústia aumenta a cada momento, da mesma forma que me lembro todos os segundos que não faria desse blog um diário contando as angústias de camila, 20 anos, solteira, desempregada.
De repente o barco furou.
Só isso.
Não pretendo continuar esse texto.
Vou mudar a música.

stop

tu tá sozinha e não entende até que pontoo caio tá certo. até que ponto isso é real:

“Esse espaço branco entre dois encontros pode esmagar completamente uma pessoa. Por isso eu acho que a gente se engana, às vezes. Aparece uma pessoa qualquer e então tu vai e inventa uma coisa que na realidade não é. E tu vai vivendo aquilo porque não aguenta o fato de estar sozinho. “

 

 

 

camila

Outubro 31, 2008

VIDA BLUE

“Na selva urbana, um homem se isola em sua vida noturna e solitária. Após dias rotineiros de trabalho, faz do violão seu único amigo, até descobrir que mais vidas como a sua dividem o mesmo cenário e utilizam a mesma linguagem para se comunicar: o Blues. “

Com trilha sonora original, Vida Blue é uma animação de Tiago Franz e Ismael Franz, criado dentro das atividades da disciplina de Telejornalismo II da Unochapecó.

1° Lugar - categoria cinema - Intercom Sul 2008 em Guarapuava – PR

1° Lugar – categoria cinema - Intercom Nacional, em Natal – RN

Outubro 31, 2008

EMBRIAGAI-VOS…

É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha. Contanto que vos embriagueis. E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder: É hora de se embriagar! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
(Baudelaire)

Outubro 30, 2008

….

Caio Fernando Loureiro de Abreu
Caio Fernando Loureiro de Abreu

“… isso que chamamos de amor, esse lugar confuso entre o sexo e a organização familiar…”

Sérgio, não sabia como começar – então comecei copiando essa frase aí de cima, é Caetano Veloso numa entrevista ao JB, vim lendo pelo caminho, não consegui me livrar dela.

Agora estou aqui, escrevendo para você no meu quarto antigo, que minha mãe conserva tal-e-qual, como se eu um dia fosse voltar para casa. E lá se vão – quantos mesmo? – sei lá, quinze vinte anos, qualquer coisa assim.

Chove. Faz frio. É bom estar aqui. Tão bom. Me sinto protegido. Ficamos vendo velhas fotografias, bebendo vinho e rindo muito. Meu irmão Felipe vestiu um modelinho de couro negro e saiu “para dar uma prensa numa caixa de supermercado”. Márcia está tão bonita. E Rodrigo, meu sobrinho, que tem dois anos e não parece quase me desconhecer. Deixei-os vendo um filme antigo dos Beatles, Lennon repetindo “don´t let me down” – e agora percebo que meu inglês anda tão precário que não lembro se é d´ont ou don´t.

Cansado, cansado. Quase não dormi. E não consigo tirar você da cabeça. Estou te escrevendo porque não consigo tirar você da cabeça. Hesito em dizer qualquer coisa tipo me-perdoe ou qualquer coisa assim. Mas quero te contar umas coisas. Mesmo que a gente não se veja mais. Penso em você, penso em você com força e carinho. Axé.

Foi mau, ontem. Fui mau, também. Menos com você, mais comigo mesmo. Depois não consegui dormir. Me bati pela casa até quase oito da manhã. Teria telefonado para você, não fosse tão inconveniente. Acabei ligando para Grace, pedi paciência, chorei, contei, ouvi.

Não era nada com você. Ou quase nada. Estou tão desintegrado. Atravessei o resto da noite encarando minha desintegração. Joguei sobre você tantos medos, tanta coisa travada, tanto medo de rejeição, tanta dor. Difícil explicar. Muitas coisas duras por dentro. Farpas. Uma pressa, uma urgência.E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça. Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. Não queria fazer mal a você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada. Por que o Zen de repente escapa e se transforma em Sem? Sem que se consiga controlar.

Te escrevo com um cigarro aceso e uma xícara de chá de boldo. A escrivaninha é muito antiga, daquelas que têm uma tampa, parece piano. Tem um pôster com Garcia Lorca na minha frente. Um retrato enorme de Virginia Woolf. E posso ver na estante assim, de repente, todo o Proust, e muito Rimbaud, e Verlaine, Faulkner, Ítalo Svevo, William Blake. Umas reproduções de Picasso. Outras de Da Vinci. Um biscuit com um pierrô tão patético. Uma pedra esotérica ainda de Stonehenge, Inglaterra, uma caixinha indiana. Todos os meus pedaços aqui. E você não me conhece, eu não conheço você.

Te escrevo por absoluta necessidade. Não conseguiria dormir outra vez se não te escrevesse. Zelda, há também o único romance escrito por Zelda Fitzgerald, a mulher de Scott Fitzgerald, que morreu louca, um incêndio, um hospício. Chama-se “Save me the waltz”. “Reserve-me a valsa”, não é lindo? Lembra o Brahma, se se dançasse no Brahma.

Please, save me the waltz.

Fiz fantasias. No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone. Que você fosse ao aeroporto. Casablanca, última cena. Todas as cartas de amor são ridículas. Esse lugar confuso de que fala Caetano. E eu estava só começando a entrar num estado de amor por você. Mas não me permiti, não te permiti, não nos permiti. Pedro Paulo me dizendo no ouvido “nunca vi essas luz nos seus olhos”.

Eu não queria saber.Tão artificial, tão estudado. Detesto ouvir minha voz no gravador ou ver minha imagem em vídeo. Sôo falso para mim mesmo. A calma, o equilíbrio, as palavras ditas lentamente, como se escolhesse. Raramente um gesto, um tom mais espontâneo. Tão bom ator que ninguém percebe minha péssima atuação.

Você compreende tudo isso?

Pausa. Campainha. O jornal de domingo. Desço, outro chá de boldo. Um comentário de Rubens Ewald sobre Aqueles dois, diz que é excelente, fala da “dignidade e tratamento delicado dado ao tema”. Lembro da crítica de Sérgio Augusto, de como fez mal por dentro. Já passou.

Quando pergunto você-compreende-tudo-isso não estou subestimando você. Ah, deus, perdoe. Não sinto agressividade nenhuma em relação a você. E gosto das tuas histórias. E gosto da tua pessoa. Dá um certo trabalho decodificar todas as emoções contraditórias, confusas, soma-las, diminui-las e tirar essa síntese numa palavra só, esta: gosto.

Dormi umas três horas e acordei ouvindo Quereres, de Caetano. Repeti, várias vezes, cada vez mais alto. Ah, bruta flor do querer. Discutia tanto com Ana Cristina César, antes que ela acolhesse a morte (acertadamente? Me pergunto até hoje, nunca sei responder): nossa necessidade fresca & neurótica de elaborar sofrimentos e rejeições e amarguras e pequenos melodramas cotidianos para depois sentar Atormentado & Solitário para escrever Belos Textos Literários.

O escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável. Você me dizia “que diferença entre você e um livro seu”. Eu não sou o que escrevo ou sim, mas de muitos jeitos. Alguns estranhos.

Não há nenhum subtexto nisto que te escrevo. Não acho bonito que a gente se disperse assim, só isso. Encontre, desencontre e nada mais, nunca mais, é urbano demais – e eu nasci praticamente no campo, até os 15 anos quase no campo, céu e campo. Não sei se a gente pode continuar amigo. Não sei se em algum momento cheguei a ver você completamente como Outra pessoa, ou, o tempo todo, como Uma Possibilidade de Resolver Minha Carência. Estou tentando ser honesto e limpo. Uma possibilidade que eu precisava devorar ou destruir. Porque até hoje não consegui conquistar essa disciplina, essa macrobiótica dos sentimentos, essa frugalidade das emoções.

Fico tomado de paixão. Há tempos não ficava.

E toda essa peste, meu amigo. O que tem me mantido vivo hoje é a ilusão ou a esperança dessa coisa, “esse lugar confuso”, o Amor um dia. E de repente te proíbem isso. Eu tenho me sentido muito mal vendo minha capacidade de amar sendo destroçada, proibida, impedida, aos 36 anos, tão pouco. Nem vivi nada ainda. E não sou sequer promíscuo. Dum romantismo não pós, mas pré todas as coisas – um romantismo que exige sexualidade e amor juntos. Nunca consegui. Uns vislumbres, visões do esplendor. Me pergunto se até a morte – será? Será amor essa carência e essa procura de amor, nunca encontrar a coisa?

Das minhas heterossexualidades, dois filhos mortos, não ficou nada. Das minhas homossexualidades, esse pânico lento e uma solidão medonha. A hora é tão grave.

Vim pegar energia. Sim. Preciso ver a terra, preciso do horizonte do pampa. Já começa a agir, meus ombros se soltaram. Olhei no espelho e aquela ruga entre as sombrancelhas se desfez.

Não quero me tornar uma pessoa pesada, frustrada, amarga. Não vou me tornar assim. Então vacilo, escorrego e a mania de perfeição virginiana e a estética libriana no dia seguinte me dizem “que vergonha, que vergonha, que vergonha”.

Eu podia dizer que tinha/tínhamos bebido demais. Eu podia dizer que estava com tanto medo de vir para Porto Alegre. Eu podia contar a você dos meus últimos meses, oito, dez, doze horas por dia sobre a máquina de escrever, falando com quase ninguém. Sozinho, às vezes. Cantando também. Tudo isso, se eu te dissesse, talvez tivesse ajudado a doer menos em você.

De repente me passa pela cabeça que você pode estar detestando tudo isso e achando longo e choroso e confuso. Mas eu não quero ter vergonha de nada que eu seja capaz de sentir. Tento não ficar assustado com a idéia que este tempo aqui é curto, que eu vou voltar a São Paulo e que talvez não veja mais você. Sei que não fico assustado demais, e enfrento, e reconstituo os pedaços, a gente enfeita o cotidiano – tudo se ajeita. Menos a morte.

Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas… Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo.

Quando te falo da idade, quando te falo do tempo, e não tivemos tempo – queria te falar de Cronos, Saturno, da volta pelo Zodíaco quando se completa 30 anos. A tua estrela é muito clara, tem sinais bons na tua testa. Compreendo teu Plutão e a Lua encarcerados na casa XII – as emoções e paixões aprisionadas -, e também Urano, todo o impulso bloqueado. Na mesma casa, a do Karma, a dos espíritos que mais sofrem, tenho também o Sol, Mercúrio e Netuno. Somos muito parecidos, de jeitos inteiramente diferentes: somos espantosamente parecidos. E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura. Perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de segurar a maçã no escuro. Me queira bem.

Estou te querendo muito bem neste minuto. Tinha vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importância, algumas. Fique feliz, fique bem feliz, fique bem claro, queira ser feliz. Você é muito lindo e eu tento te enviar a minha melhor vibração de axé. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim.

Com cuidado, com carinho grande, te abraço forte e te beijo,

Caio F.

p.s.: Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis. E amanhã tem sol.

Outubro 28, 2008

“A primavera nascerá um pouco mais tarde esse ano, um pouco mais tarde sobre minhas vãs ilusões, sobre minhas solitárias lembranças de você. Porquê você me deixou e levou todos os setembros”

Claudio Rabello

Outubro 21, 2008

Cão sem Dono

foto divulgação.

foto divulgação.

O quinto longa-metragem do paulista Beto Brant, em parceria com Renato Ciasca, é baseado na novela Até o Dia em Que o Cão Morreu, de Daniel Galera.

C ã o s e m D o n o - Conta a história de Ciro (Júlio Andrade), um jovem recém-formado em literatura, que trabalha com traduções e passa por uma crise marcada pela falta de planos, e sua namorada Marcela (Tainá Muller), ambiciosa modelo que, ao contrário dele, é cheia de planos e sonhos.

P r ê m i o s – O longa rendeu prêmios no Festival de Recife como Melhor Filme, (pelo júri oficial e pela crítica), e de Melhor atriz para Tainá Muller, que também levou o prêmio no Festival de Cuiabá.

C R Í T I C A

D a n i e l F e i x – GOSTEI

Numa das cenas mais bonitas de Cão sem Dono, o pai do protagonista relata ao filho a trsite experiência de tê-lo perdido, certa vez, quando por pensar demais em si próprio e esquecer da família teve de monólogo, sem música ocidental, filmado em câmera estática e luz natural, num plano único e longo. Radical em seu naturalismo e em sua simplicidade – como de resto todo o filme. Mas nem por isso, muito pelo contrário, menos intenso. É no mínimo tocante, em meio àquele silêncio tão real, ouvir a emocionante história do pai para o filho. Como Robert Bresson, Beto Brant e Renato Ciasca sabem que menos ´4e mais. Economizam nos meios, apostando que a energia do filme pode surgir de sua própria crueza. Em vez de efeitos fáceis de música ou diálogos retóricos, despojamento: cinema em seu estado mais puro, cinema em sua essência.

Nada é gratuito, tudo é funcional em Cão sem Dono. As frases simples são de personagens simples, os vazios que se vê na tela são o próprio vazio existencial do protagonista. O roteiro tem a mão de Marçal Aquino (em conjunto com os dois diretores), mas talvez seja a espontaneidade que surge das gravações a maior riqueza do filme. Para interpretar Ciro, o jovem desiludido em meio aos conflitos do início da vida adulta, Júlio Andrade literalmente viveu como o personagem. Com Churras, o cachorro vira-lata que é uma metáfora da condição do protagonista, morou por um mês no apartamento que serviu de locação para a produção. Decorou o set com seus próprios pertences, leu russos e existencialistas, provou de uma solidão aguda. Que só pode der explorada graças ao despojamento do projeto, ao realismo impregnado no longa. Cão sem Dono é uma verdadeira experiência estética. E a espontaneidade, trabalhada, forjada, autoral, ressalte-se, não fica restrita ao personagem principal, mas estende-se à sua namorada Marcela (Tainá Muller, não por acaso namorada do autor do livro que originou o filme), e a todo o restante do elenco.

A Porto Alegre revelada por Cão sem Dono é cinza e fria. O protagonista, dizem os diretores, tem a “alma doente”. Se isso parecer estranho, nenhuma surpresa: a geração de Ciro e Marcela pode estar na literatura e em outras manifestações artísticas locais, mas ainda não havia se visto no cinema. Também nisso o filme é admirável: está a léguas de distância da caretice e do academicismo que marcam boa parte da produção gaúcha atual de longa-metragem.

F l á v i o I l h a – NÃO GOSTEI

Cinema não precisa ser realista. Pode até ser, mas não precisa. Hiper-realista, então nem se fala. Mesmo os mais ferrenhos defensores de uma arte espontânea – Vittorio de Sica, por exemplo – optaram, aqui e ali, por introduzir uma luz, desenvolver um clima que fosse para explicitar o jogo entre público e artista: isto aqui é ficção.

Não é o que acontece quando se assiste ao quinto longa de Beto Brant (este em parceria com Renato Ciasca), que se notabilizou por imprimir um tom excessivamente naturalista a seus filmes. Em Cão sem Dono, ele foi ao extremo. Não só por pontuar a história, adaptada do romance de Daniel Galera, com um histriônico realismo (com a cena – inútil – de uma endoscopia), mas por estender essa opção à esfera estética do filme. Diferentemente do ótimo Crime Delicado (2005), em que essa abordagem não afetava a linguagem, em Cão sem Dono a luz é opaca, a fotografia é despretensiosa. A cenografia não existe. O som é natural. Não há música. Parece uma saída, radical, para compensar a falta de ritmo da história.

O problema é que estamos no cinema. Assim como no teatro ou nas telenovelas, há uma representação em curso. Um jogo. Tudo bem que a abordagem de uma narrativa possa prescindir de dramaticidade. Mas é um risco, ainda mais em se tratando de uma história comum. Já vi abordagens mais provocativas sobre a violência das paixões humanas.

É claro que a radicalidade dessa proposta confere momentos bons aos filme – principalmente nas cenas em eu Porto Alegre aparece despida da máscara do cinema – mas em geral a narrativa se arrasta em cenas que não contribuem notavelmente para o desfecho da trama. Que, aliás, é previsível. Não há como evitar um certo aborrecimento.
O romance da Galera, por sinal, já exigiria um grande esforço de adaptação. Não é fácil transformar as angústias de um pós-adolescente em imagens, já que o protagonista sofre de um enorme vazio existencial. Ciro não sabe o que quer da vida. Já Marcela não tem dúvida sobre seu futuro. Uma nítida discrepância que os aproxima e os afasta. Mas o conflito que poderia surgir daí não se confirma: eles vivem um romance tão doce que só uma doença fatal é capaz de abalar.

O desfecho é o ponto frágil do filme. Além de previsível, provoca um anticlímax. Tudo soa precário: a descoberta do linfoma de Marcela, as tentativas de consolo por parte de Ciro, o tratamento, a procura desesperada por ela e, claro, o fim. Justo quando deveria imitar a vida, tão inflexível, Cão sem Dono escorrega para um final melodramático. Uma pena.

Outubro 21, 2008

Azul cor de céu

Passar por aquelas sensações novamente. Pensava, enquanto vestia a meia branca de algodão ordinário com costurais laterais em cor azul celeste, sentada na cama de madeira antiga na parede esquerda do quarto, naquele apartamento da avenida sete de setembro. Azul celeste. Fazia algum tempo já que ninguém falava em azul celeste. Ouvia falar dessa cor só quando era pequena, quando brincava na escola. Era a cor da fita que o diabo rengo nunca acertava. E era a cor que ela sempre escolhia pra ser a fita. O azul celeste naquela época protegia ela de correr do diabo de pernas longas, que era a vizinha da frente, e hoje melhor amiga. Ela sempre se agarrava com força naquilo que a poderia defender de qualquer coisa, de qualquer risco, de qualquer sensação mais forte que a sentida normalmente, todos os dias. Perdeu de sentir a emoção de correr do diabo, de mudar a cor da fita. Perdeu de perder. Por mais que naquela época já se considerasse uma perdedora. Perder. Ultimamente estava perdendo tudo. Ultimamente, para ela, era o período de um ano pra cá. Tudo. A começar pelo namorado, por mais que a relação deles não fosse às mil maravilhas, perder o namorado naquela época foi o começo do fim. Depois perdeu a vontade. Depois os sonhos. O respeito. A confiança. Depois os amigos. Agora só tinha o cigarro, que segurava com a mão esquerda enquanto a mão direita digitava coisas sem pensar, bem devagar, a meia de algodão ordinário e aquela terrível sensação novamente. A sensação de tudo não passar de uma lembrança vaga. Sensação de mudança. Sensação. Lembranças. Era acostumada a viver apenas de lembranças. Da fotografia no porta-retrato também azul celeste na escrivaninha do computador. Dos livros que lembravam alguém. Dos papéis de chiclete mascado há algum tempo. Das cartas de pessoas que hoje não lembram mais dela. Agora sentada na cadeira de madeira tão antiga como a cama, fumava um cigarro, que segurava na mão esquerda, enquanto olhava para a tela do computador como se não existisse, furando as paredes, imaginando o nada, com a mão direita já paralisada. Tela vazia. Vida vazia. Rodeada de livros que eram os mesmos que lera ontem e anteontem e há um ano atrás. O cigarro era o mais barato do posto da esquina. Aquele, lá em embaixo. Um amigo havia trazido. Um dos poucos que restavam. O único? O que ainda agüentava as murrinhas e inscontância, o bafo de morango podre na boca. Tinha medo que ele se fosse com o tempo. Tempo. Pensava no tempo. Pensava no vento. Parece que o vento empurra o tempo. Pensava. E naqueles últimos dias o vento tava forte demais.

Camila

Outubro 20, 2008

Uma história confusa

Uma primeira versão desta história foi publicada em 1974, na “Revista ZH”, de Zero Hora, e escrita provavelmente no mesmo ano, em Porto Alegre. Esta versão, a definitiva, foi totalmente reescrita. Creio que ganhou, embora pareça paradoxal, mais ambigüidade e mais clareza.
Caio F.

Era quinta-feira. Como nas últimas quintas, ele estava muito nervoso e trazia um envelope na mão. Jogou o envelope em cima da mesa, ficou andando pelo quarto.
- Outra carta?- perguntei.
Não respondeu. Só fez um movimento impaciente com os ombros, que podia significar muitas coisas. Mas não disse nada. Eu então abri e li as palavras datilografadas com cuidado:
“Te vi por detrás das rosas e havia nos teus olhos uma ânsia muda. Algo assim como se quisesses falar comigo. Juro que na saída tentei me aproximar. Mas tive medo. Sei que ainda vamos ser amigos. Não quero forçar nada. Hoje é domingo pouco antes do almoço. A casa está vazia. Eu gostaria de ter escrito logo depois daquela noite. É incrível, mas há duas décadas, nesse mesmo dia da semana, nessa mesma hora, eu estava nascendo.”- É bonito – eu arrisquei. – Um pouco juvenil, talvez. Mas bonito. Afinal, a adolescência é sempre bonita.
- Ele tem vinte anos.
- Ele? Como é que você sabe que é ele e não ela?
- Eu acho, eu sinto. Uma mulher não escreveria essas coisas. Não sei, o jeito de escrever, alguma coisa.
- Pode ser – eu disse.
- E tinha uma outra carta, acho que não mostrei a você. Ele dizia que estava cansado, isso mesmo, cansado e não cansada.
- Não lembro – menti.- E ele pode estar mentindo. Essa data, por exemplo, essa data pode ser inventada.
Ele evitou meus olhos ao contar:
- Fui consultar um astrólogo. Ele nasceu a 22 de setembro de 1954. Entre mais ou menos dez e meio-dia. É de Virgem, o astrólogo disse, do último dia de Virgem. Pelos cálculos, o ascendente deve ser Escorpião.
- Ascendente?
- É o signo que. – Ele levantou os olhos, irritado. – Escuta, você não vai querer agora que eu te dê uma aula de astrologia, vai?
- Não, não. Só queria saber o que quer dizer isso.
- Quer dizer que ele deve ser inteligente. Muito inteligente. E secreto, misterioso, intenso. Só pelas cartas qualquer um percebe que ele tem certa… certa estrutura. As cartas são bem escritas, a gramática é sempre correta.
- É verdade – eu disse. – Corretíssima.
Ele sentou na beira da cama. E afundou no travesseiro:
- Não agüento mais. Isso tem quase dois meses. Preciso saber quem é essa pessoa.
Sentado aos pés da cama, eu não sabia o que dizer.
- Ele sabe tudo sobre mim, os meus horários, tudo. Às vezes fala das pessoas que conheço, de lugares onde vou. Deve estar sempre por perto, deve conhecer muita gente que eu conheço.
- Você está muito agitado.
- Claro. Como é que você queria que eu estivesse? Cada vez que recebo uma carta dessas fico assim. Me dá uma sensação estranha, saio na rua com a impressão que estou sendo observado. Alguém que eu não sei quem é acompanha todos os meus passos.
- Com amor – eu disse.
Ele acendeu um cigarro e ficou seguindo a fumaça até o teto:
- Amor? Não sei. É meio paranóico. Parece uma coisa para enlouquecer a gente devagar.
- Ou para fazer que você se interesse por ele.
Levantou-se de repente e debruçou-se na mesa. De costas, eu só podia ver seus ombros curvos e as duas mãos abertas segurando a cabeça.
- Fico imaginando as histórias mais incríveis. Às vezes acho que é alguém querendo divertir-se comigo.
- Não. – E disse pela segunda vez: – Isso é amor.
- Será? Tem coisas, tem coisas que ele escreve que parecem. Não sei, parecem verdade, entende? Ele me toca, mexe comigo. Talvez eu esteja assim todo lisonjeado porque alguém parece prestar tanta atenção em mim.
- Isso é amor – eu repeti pela terceira vez.
Ele caminhou até a janela. Percebi que olhava as folhas das palmeiras no meio da rua, remexidas pelo vento norte.
- Às vezes tenho vontade de bancar o detetive. Mas as pistas são muito tênues. Selos comuns, envelope comum, cada dia um carimbo de uma agência diferente. E esse tipo de máquina é o mais comum que existe.
- Lettera 22.
Ele jogou a ponta do cigarro pela janela, voltou-se de repente e me olhou nos olhos:
- Como é que você sabe?
- Bom, qualquer um que lida com máquina de escrever reconhece logo. É inconfundível – eu afirmei. E mudei de assunto: – Mas não deixa de ser bonito.
- Bonito e infernal.
- E antigo.
- Cartas anônimas. Parece coisa de romance do século passado. Romance epistolar. Platônico. – Suspirou fundo. – Mas eu preciso saber logo quem é esse rapaz. Nunca ninguém se interessou tanto por mim.
Tornou a sentar na mesa, acendeu outro cigarro. Estendi o cinzeiro para ele:
- Você sempre fuma demais nas quintas-feiras.
Ele riu:
- Agora nas quartas também. Fico pensando se no dia seguinte vai chegar outra carta. – Tragou fundo, olhos fechados. E acrescentou, soltando fumaça: – Também tenho escrito para ele.
- O quê?
- Tenho escrito para ele, escondido.
- Você não contou nada para Martha?
- Está louco? Você sabe como ela é ciumenta, contei só para você. Eu tenho que me esconder para escrever. Trancado no escritório, fico pensando que deve haver uma espécie assim de espírito do que eu estou escrevendo que sai pela janela, eu deixo sempre a janela aberta quando escrevo para ele, depois voa sobre os telhados e atravessa as ruas da cidade e as paredes para chegar até onde ele está, percebe?
- E o que você faz com as cartas que escreve?
- Guardo. A sete chaves. Um dia talvez possa entregá-las pessoalmente.
Eu também acendi um cigarro.
- E… o que você diz nessas cartas?
- Eu peço socorro. Eu digo que o meu casamento é um horror, já três anos desse horror que não acaba. Sabe que agora a Martha deu pra me chamar de fofo? Tem coisa mais odiosa? No domingo me pede uma parte do jornal e fica dizendo “olha só, fofo, precisamos aproveitar essa liquidação aqui, fofo, vai só até o dia 15, fofo”.- Mas a Martha era uma mulher tão… especial.
- Antes de casar. Depois que casa, toda mulher vira débil mental. Bem fez você que não entrou nessa.
Eu apaguei o cigarro:
- E o que mais você diz nessas cartas?
Ele curvou-se outra vez sobre a mesa, uma das mãos apoiava a cabeça, a outra passava lenta no tampo de madeira. Como uma carícia:
- Digo que às vezes eu tenho vontade de ter outra vez um amigo como aqueles que a gente tinha na adolescência. Aqueles pra quem você contava tudo, absolutamente tudo. E que no fim você nem sabe mais se é amigo ou irmão.
- Ou amante.
- Ou amante – ele repetiu. Depois jogou-se outra vez na cama, tirou uma folha amassada do bolso e leu: – Eu digo que estou disposto a qualquer coisa, eu digo assim: “Chegue bem perto de mim. Me olhe, me toque, me diga qualquer coisa. Ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada. Daqui há pouco você vai crescer e achar tudo isso ridículo. Antes que tudo se perca, enquanto ainda posso dizer sim, por favor, chegue mais perto”.Dobrou a folha e tornou a enfiá-la no bolso, ainda mais amassada.
Ficamos nos olhando. Eu não sabia o que dizer. Ele afundou novamente na cama, virou-se para a parede. Fiquei ouvindo:
- Falo para você um pouco como se fosse para ele. Se você pudesse me ajudar, se ele pudesse me ajudar. É tão complicado. Saio na rua e fico olhando todos os meninos de vinte anos, como se cada um pudesse ser ele. Ando sentindo umas coisas que não entendo direito. Não gosto de não entender o que sinto. Não gosto de lidar com o que não conheço. Eu nunca vivi nada assim.
Um vento mais forte abriu a janela, fazendo voar as cinzas do cinzeiro sobre a mesa. Ele parecia menor, encolhido sobre a cama. Eu continuei ouvindo:
- Já tenho trinta e quatro anos, não posso sentir as coisas como se tivesse quinze. Você sabe, nós temos quase a mesma idade. Quanto você tem agora?
- Trinta e três – eu disse.
- Pois é, você sabe bem. A gente não tem mais idade pra ficar com esses delírios.
- Você acha que não? – eu perguntei. Mas ele continuou a falar sem ouvir.
- É tão estranho de repente saber que tem alguém pensando em mim o tempo todo. Alguém que eu não conheço. E que tem vinte anos. Fico pensando umas coisa loucas, não consigo parar.
- Que coisas – eu perguntei em voz baixa -, que coisas você pensa?
Ele passou a mão pela parede branca:
- Deitar do lado dele. Sem roupa. Abraçá-lo com força. Beijá-lo. Na boca. – Crispou a mão na parede e puxou-a para junto do corpo, para o meio das pernas. – Deve ser o vento norte, esse excesso de luz, a primavera chegando, a lua quase cheia. Não sei, desculpe. Eu estou muito confuso.

Ficou calado de repente. Olhava pela janela como se estivesse vendo algo, além das palmeiras, que eu não conseguia ver. Eu continuava sem saber o que dizer. Cheguei a chegar mais perto para estender a mão e tocar nos seus cabelos desgrenhados. E se não tivesse só vinte anos, esse rapaz, pensei em perguntar, você continuaria a gostar dele? Achei melhor não dizer nada. Parei minha mão no ar, depois puxei-a de volta para pegar outro cigarro. Mas continuei perto dele. Mais perto, bem perto. Era outra quinta-feira, esta de setembro, e desde o início de agosto nós andávamos os dois muito confusos.

Outubro 20, 2008

De volta em casa.

Tem o lado bom em ter um abrigo de volta pra ti, onde tu se sinta realmente em casa. Começo a acreditar em energias. As desse lugar estão ótimas. È como se pudesse sentir o cheiro de terra molhada sabe… essas coisas… “meu coração dói em uma dor que não consigo comunicar a ninguém”. Uma dor estranha. Doente. Não sei se de alívio, mágoa, saudade. Toca uma música melodiosa no rádio e eu nem faço a mínima questão de trocá-la. Levar o braço até lá seria um esforço imenso, pior do que levantar pra pegar o copo quente de cor preta, com “chá-preto” também quente, levá-lo até a boca…. Privação. É bom também.saber que a minha vida ta tomando outros rumos… desse jeito me impressiona. Saber que agora, nessa exato momento, depois dessa frase, eu já nem sou a mesma a mesma de quando sentei e comecei a escrever isso aqui, sem pretensão nenhuma, me assusta. Me faz sentir o tempo. Sempre empurrado pelo vento.

Os vendavais das últimas semanas desgrenharam meus cabelos mas secaram minhas roupas. Me sinto outra, mas ainda não sei lidar com essa outra que está sentada agora diante deste computador meio antigo, meio sujo, digitando palavras, frases que nem sabe, agora, se um dia alguém vai chegar a ler.

Os planos são outros já. E o passado é uma roupa que já não nos serve mais.

As últimas semanas passaram como meses… a bonitesa das pessoas chega a me assustar um pouco. Saem uns… entram outros… e me pergunto como deixamos as coisas chegarem onde estão. Mas não quero pensar, discutir, argumentar sobre isso agora. Elas, as coisas, as pessoas, se perdem e se acham numa incrível modalidade de tempo. Esse chorar por tudo quer ameaçou e não chegou a ser não combina com a estação. O cheiro é outro. As caras são outras. Eu sou outra. A porta abre porque eu empurro. E vou empurrar sempre. Tem um nó soltando na minha garganta. Me sinto assustada. Essa liberdade de poder ir e vir, agora, de repente, depois de tanto tempo… e o que fica de tudo isso? Apenas as lembranças?

Um amigo, velho novo amigo, me diz que tem de ser feito tudo agora. Na hora da vontade, na hora do impulso. Me admiro dessa maneira dele viver. Ele tem sede, e o copo ta cheio. Ver ele se derramando dessa água que nunca termina é delicioso. Eu sou a platéia torcendo pro copo não esvaziar. Pra sede não acabar. Ele lembra eu em outros tempos.

Hoje talvez seja um daqueles dias que você vê em filme norte-americano onde as pessoas fazem uma listinha: coisas que preciso fazer antes de morrer:

O que eu faria Antes de morrer?

Isso não foi um tom dramático. E foda-se! Pra ti foi? Foda-se… maldita leitura. Maldita subjetividade.

Hoje seria o tempo em que eu estaria pronta pra fazer coisas que eu fiz antigamente.
Estranho. Llógico, ao mesmo tempo.

Chorumelas no rádio.

Stop.

A música melhorou. E eu vou ficando por aqui. Coisas a fazer numa madrugada de sábado pra domingo. Bendito seja o impulso de todos os dias. Amém.

01h e 39min. Domingo – 12 de outubro de 2008. ao som de Damien Raci – Older Chests

camila

Setembro 16, 2008

Quando você não está por perto – Barão Vermelho

Eu quero ficar nu diante dos seus olhos
 Falar bem perto do seu ouvido
 Decifrar tua alma e os gemidos
 Temos tempo pra viver
 Quero descobrir o amor de novo
 Encontrar em alguém o que eu  procuro
 Livrar o amor do escuro
 E destruir o muro
 Que cerca meu coração

 Vai ser bom pra mim
 Ficar só ‚ tão ruim
 Vai ser bom pra mim
 Ficar só ‚ tão ruim

 A vida me sorriu, permitiu você nascer
 Estrela pra dar sorte
 Por tudo o que  a gente fez
 É pura tua luz, teu rosto, teu olhar
 Quando você está longe
 A mim só resta lembrar

 Quando você não está por perto
 Meu mundo é um deserto no frio