
foto divulgação.
O quinto longa-metragem do paulista Beto Brant, em parceria com Renato Ciasca, é baseado na novela Até o Dia em Que o Cão Morreu, de Daniel Galera.
C ã o s e m D o n o - Conta a história de Ciro (Júlio Andrade), um jovem recém-formado em literatura, que trabalha com traduções e passa por uma crise marcada pela falta de planos, e sua namorada Marcela (Tainá Muller), ambiciosa modelo que, ao contrário dele, é cheia de planos e sonhos.
P r ê m i o s – O longa rendeu prêmios no Festival de Recife como Melhor Filme, (pelo júri oficial e pela crítica), e de Melhor atriz para Tainá Muller, que também levou o prêmio no Festival de Cuiabá.
C R Í T I C A
D a n i e l F e i x – GOSTEI
Numa das cenas mais bonitas de Cão sem Dono, o pai do protagonista relata ao filho a trsite experiência de tê-lo perdido, certa vez, quando por pensar demais em si próprio e esquecer da família teve de monólogo, sem música ocidental, filmado em câmera estática e luz natural, num plano único e longo. Radical em seu naturalismo e em sua simplicidade – como de resto todo o filme. Mas nem por isso, muito pelo contrário, menos intenso. É no mínimo tocante, em meio àquele silêncio tão real, ouvir a emocionante história do pai para o filho. Como Robert Bresson, Beto Brant e Renato Ciasca sabem que menos ´4e mais. Economizam nos meios, apostando que a energia do filme pode surgir de sua própria crueza. Em vez de efeitos fáceis de música ou diálogos retóricos, despojamento: cinema em seu estado mais puro, cinema em sua essência.
Nada é gratuito, tudo é funcional em Cão sem Dono. As frases simples são de personagens simples, os vazios que se vê na tela são o próprio vazio existencial do protagonista. O roteiro tem a mão de Marçal Aquino (em conjunto com os dois diretores), mas talvez seja a espontaneidade que surge das gravações a maior riqueza do filme. Para interpretar Ciro, o jovem desiludido em meio aos conflitos do início da vida adulta, Júlio Andrade literalmente viveu como o personagem. Com Churras, o cachorro vira-lata que é uma metáfora da condição do protagonista, morou por um mês no apartamento que serviu de locação para a produção. Decorou o set com seus próprios pertences, leu russos e existencialistas, provou de uma solidão aguda. Que só pode der explorada graças ao despojamento do projeto, ao realismo impregnado no longa. Cão sem Dono é uma verdadeira experiência estética. E a espontaneidade, trabalhada, forjada, autoral, ressalte-se, não fica restrita ao personagem principal, mas estende-se à sua namorada Marcela (Tainá Muller, não por acaso namorada do autor do livro que originou o filme), e a todo o restante do elenco.
A Porto Alegre revelada por Cão sem Dono é cinza e fria. O protagonista, dizem os diretores, tem a “alma doente”. Se isso parecer estranho, nenhuma surpresa: a geração de Ciro e Marcela pode estar na literatura e em outras manifestações artísticas locais, mas ainda não havia se visto no cinema. Também nisso o filme é admirável: está a léguas de distância da caretice e do academicismo que marcam boa parte da produção gaúcha atual de longa-metragem.
F l á v i o I l h a – NÃO GOSTEI
Cinema não precisa ser realista. Pode até ser, mas não precisa. Hiper-realista, então nem se fala. Mesmo os mais ferrenhos defensores de uma arte espontânea – Vittorio de Sica, por exemplo – optaram, aqui e ali, por introduzir uma luz, desenvolver um clima que fosse para explicitar o jogo entre público e artista: isto aqui é ficção.
Não é o que acontece quando se assiste ao quinto longa de Beto Brant (este em parceria com Renato Ciasca), que se notabilizou por imprimir um tom excessivamente naturalista a seus filmes. Em Cão sem Dono, ele foi ao extremo. Não só por pontuar a história, adaptada do romance de Daniel Galera, com um histriônico realismo (com a cena – inútil – de uma endoscopia), mas por estender essa opção à esfera estética do filme. Diferentemente do ótimo Crime Delicado (2005), em que essa abordagem não afetava a linguagem, em Cão sem Dono a luz é opaca, a fotografia é despretensiosa. A cenografia não existe. O som é natural. Não há música. Parece uma saída, radical, para compensar a falta de ritmo da história.
O problema é que estamos no cinema. Assim como no teatro ou nas telenovelas, há uma representação em curso. Um jogo. Tudo bem que a abordagem de uma narrativa possa prescindir de dramaticidade. Mas é um risco, ainda mais em se tratando de uma história comum. Já vi abordagens mais provocativas sobre a violência das paixões humanas.
É claro que a radicalidade dessa proposta confere momentos bons aos filme – principalmente nas cenas em eu Porto Alegre aparece despida da máscara do cinema – mas em geral a narrativa se arrasta em cenas que não contribuem notavelmente para o desfecho da trama. Que, aliás, é previsível. Não há como evitar um certo aborrecimento.
O romance da Galera, por sinal, já exigiria um grande esforço de adaptação. Não é fácil transformar as angústias de um pós-adolescente em imagens, já que o protagonista sofre de um enorme vazio existencial. Ciro não sabe o que quer da vida. Já Marcela não tem dúvida sobre seu futuro. Uma nítida discrepância que os aproxima e os afasta. Mas o conflito que poderia surgir daí não se confirma: eles vivem um romance tão doce que só uma doença fatal é capaz de abalar.
O desfecho é o ponto frágil do filme. Além de previsível, provoca um anticlímax. Tudo soa precário: a descoberta do linfoma de Marcela, as tentativas de consolo por parte de Ciro, o tratamento, a procura desesperada por ela e, claro, o fim. Justo quando deveria imitar a vida, tão inflexível, Cão sem Dono escorrega para um final melodramático. Uma pena.