Passar por aquelas sensações novamente. Pensava, enquanto vestia a meia branca de algodão ordinário com costurais laterais em cor azul celeste, sentada na cama de madeira antiga na parede esquerda do quarto, naquele apartamento da avenida sete de setembro. Azul celeste. Fazia algum tempo já que ninguém falava em azul celeste. Ouvia falar dessa cor só quando era pequena, quando brincava na escola. Era a cor da fita que o diabo rengo nunca acertava. E era a cor que ela sempre escolhia pra ser a fita. O azul celeste naquela época protegia ela de correr do diabo de pernas longas, que era a vizinha da frente, e hoje melhor amiga. Ela sempre se agarrava com força naquilo que a poderia defender de qualquer coisa, de qualquer risco, de qualquer sensação mais forte que a sentida normalmente, todos os dias. Perdeu de sentir a emoção de correr do diabo, de mudar a cor da fita. Perdeu de perder. Por mais que naquela época já se considerasse uma perdedora. Perder. Ultimamente estava perdendo tudo. Ultimamente, para ela, era o período de um ano pra cá. Tudo. A começar pelo namorado, por mais que a relação deles não fosse às mil maravilhas, perder o namorado naquela época foi o começo do fim. Depois perdeu a vontade. Depois os sonhos. O respeito. A confiança. Depois os amigos. Agora só tinha o cigarro, que segurava com a mão esquerda enquanto a mão direita digitava coisas sem pensar, bem devagar, a meia de algodão ordinário e aquela terrível sensação novamente. A sensação de tudo não passar de uma lembrança vaga. Sensação de mudança. Sensação. Lembranças. Era acostumada a viver apenas de lembranças. Da fotografia no porta-retrato também azul celeste na escrivaninha do computador. Dos livros que lembravam alguém. Dos papéis de chiclete mascado há algum tempo. Das cartas de pessoas que hoje não lembram mais dela. Agora sentada na cadeira de madeira tão antiga como a cama, fumava um cigarro, que segurava na mão esquerda, enquanto olhava para a tela do computador como se não existisse, furando as paredes, imaginando o nada, com a mão direita já paralisada. Tela vazia. Vida vazia. Rodeada de livros que eram os mesmos que lera ontem e anteontem e há um ano atrás. O cigarro era o mais barato do posto da esquina. Aquele, lá em embaixo. Um amigo havia trazido. Um dos poucos que restavam. O único? O que ainda agüentava as murrinhas e inscontância, o bafo de morango podre na boca. Tinha medo que ele se fosse com o tempo. Tempo. Pensava no tempo. Pensava no vento. Parece que o vento empurra o tempo. Pensava. E naqueles últimos dias o vento tava forte demais.
Camila