o ele
ELA
“Saímos todos juntos naquela noite. Ele passou me pegar em casa, depois passamos na casa de outro amigo onde estava concentrada uma galera. Fomos todos felizes empoleirados naquele carro, que não era dos maiores, já meio bêbados de vinho barato com guaraná e gelo. A garrafa sempre ficava na minha mão, só pra variar. Estávamos indo pra uma dessas casas tipo rock café, era um showzinho com uma banda local, eu acho. Tava boa parte da galerinha da turma do fundão da faculdade, com direito a melhor amiga, o ex namorado, o amigo do amigo, a ex ficante dele. Gole vai outro vem, brindes com tequila, cerveja gelada, dose de wiski grátis, alguns cigarros para descontrair (naquela época não fumávamos tanto), depois fumamos um, trocamos uma idéia e o show começou. E não sei se foi pela banda, ou pelo cigarro, ou pelas doses de wiski, ou pelo vinho com guaraná e gelo lá no início da noite, mas larguei meu copo na beirada do palco, juntei a minha bolsa tipo “saiadequandoerapequenacosturadaamão” e saí daquele barulho, com aquela banda, com a aquele wiski na cabeça. Entrei num corredor largo estilo rústico, com madeiras de galpão de CTG de interior. Logo na entrada, uma latinha de antártica amassada, chutei para o lado, tinham algumas fotos do Elvis, dois passos a frente dobrava-se a esquerda e o corredor, tumultuado, continuava… não longo nem curto. Um corredor desses de entrada de bar. E bem no meio, na verdade mais pra frente do que no meio, um mural de fotos desse monte de gente que freqüenta todos os dias esses mesmos bares. Logo o corredor acabou. Peguei um vento lá fora, sentei na grama. Acho que até fumei um cigarro. Pensei em coisas que fazia já muito tempo que não pensava. O vento batia no meu cabelo, e penso eu que, depois de 5 minutos, percorri o mesmo caminho até chegar a mesma ponta do corredor que antes eu havia saído. “
ELE
”Eu estava meio pensativo, alternando ansiedade e preocupação. Ao meu lado o ex namorado dela, uma amiga. Em frente a banda tocando sons que eu até curtia. As possibilidades de caras cabeludos vestidos de preto, interessantes e interessados por ela estavam por perto. Sem faltar nenhum. A não ser que um desgraçado estivesse escapado em meio aquela gente toda igual. O copo vazio na beira do palco escorado em uma caixa de som, sem wiski e sem ela. Meus olhos percorreram a festa, cautelosamente. Senti uma vontade de sair correndo, ir ver o que aconteceu, puxá-la pelo braço, dizer “vem cá, fica aqui do meu lado, vamos curtir a banda, quer um energético?” De súbito e sem ninguém perceber fui atrás. Meus passos largos percorreram a festa, penso que já havia passado 20 minutos e logo eu que não era nem cabeludo, nem maconheiro, nem ex namorado de ninguém, cheguei no corredor largo, estilo rústico, com madeiras de galpão de CTG de interior. Pisei em uma latinha de antártica amassada, passei por algumas fotos do Elvis, dei dois passos a frente, e exatamente quando pisei com meu allstar verde musgo virando a esquerda ela estava pisando com seu allstar branco na entrada do corredor. Magra, vento batendo e jogando seus cabelos longos e lisos no rosto, mas, mesmo de longe dava pra perceber que estava com um certo “ar de ri”, como se me dissesse “ainda bem que é você”.”
ELA
“Pisei com meu allstar branco na entrada do corredor, olhei logo para frente e lá na curva para esquerda entrando no corredor: ele. Com aquele cabelo escuro e liso sempre atrás das orelhas, allstar verde musgo, me olhando com aqueles olhos grandes numa febre de observação. O que eu poderia fazer? Sorrir, gritar, correr? Não fiz nada disso. Naquela hora o que saiu foi apenas um ar de ri, daqueles que dizem “ você?!”. Por que eu não apenas sorri eu não sei, mas naquela hora eu sabia, que ele sabia bem, que eu havia saído pra fora, pego um ar cansada de wiski na cabeça, pensado em coisas que fazia tempo que eu não pensava. E a coisa mais estranha aconteceu no momento quando: o tempo havia parado. Tudo estava em câmera lenta e eu via aquele ele que nunca chegava. Fomos um em encontro ao outro na mesma velocidade. Os passos dele eram mais largos que os meus, e lá pelo meio, na verdade, mais pra frente do que no meio, lá onde ficava aquele mural de fotos com um monte de gente que frequenta todos os dias aqueles mesmos bares, a gente parou. A ponta do meu all’star branco encontrou perfeitamente a ponta do allstar verde musgo dele. Ele colocou as mãos grandes na minha cintura, me abraçou como se sentisse saudade, me protegeu, disse que me entendia sem dizer. Eu sentia a sua respiração calma, e aquilo, naquele momento, naquele corredor incrivelmente vazio, era tão bom… ele me deu um beijo na testa, um outro no nariz, no canto da boca, no queixo e depois na boca, só um selinho, depois outro e mais outro. No próximo segundo, que pareceu mais uma 1 hora, a gente se beijou num desses beijos que você descobre que gosto tem a outra pessoa. De repente o tempo voltou ao normal… e eu acho que só havia se passado um minuto, talvez. Ele me puxou pelo braço e acabamos pegando um ar lá fora junto com uns amassos e o tempo já com pressa.”
ELE
“Já imaginava o que estava acontecendo. Mas no momento quando tudo era sensivelmente complicado demais.”
Ela
“Mal sabia eu, alternando sempre depressão e inquietude, que naquele momento tudo estava claro demais pra esquecer.”


Emili Franceschi 5:09 pm em setembro 1, 2010 Link Permanente
como eu faço pra utilizar o blog que você criou para postarmos coisas legais?